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Dia Mundial Sem Carro II

Setembro 23, 2008

Faltou escrever algumas coisas.

Li o que acabei de escrever, e no último parágrafo dá a impressão que eu sempre andei de carro a vida toda.

Na minha infância o meio de transporte da família era táxi ou ônibus da CMTC. Para ir à escola/faculdade e ao trabalho, andava sempre de ônibus. Se tem uma coisa boa do transporte público é se desligar do trânsito com um livro, música ou hibernação. E não precisa procurar vaga para estacionar.

Mas uma hora eu cansei de ter que ir pendurado na porta do ônibus todo dia para ir trabalhar/estudar. Mais precisamente com 21 anos. Eu nem gostava de dirigir, tirei a carta de motorista aos 18 por tirar. Comprei um carro porque não dava mais pra ficar naquela situação, e sair da faculdade a noite pra pegar outro ônibus lotado estava foda.

Esses dias eu ouvi um comentário em algum lugar de que a vida social urbana do paulistano não estava mais existindo, ninguém olha mais na cara de ninguém, mais por causa do carro. Isso é verdade, no ônibus eu normalmente via as mesmas pessoas, e depois de um tempo sem querer se conhecia elas. Também existe o flerte… Dentro do carro as pessoas são muito mais solitárias, embora o sentimento de solidão seja substituído pelo sentimento de poder.

Existem personagens que acabam marcando. Esses dias estava passando pela 23 de Maio e vi um doido (de verdade) no ponto de ônibus, que já havia visto antes. Aí eu lembrei que ele sempre pedia para entrar no ônibus e ficava pedindo dinheiro e aloprando todo mundo. Sentia raiva daquele filho da puta, mesmo sendo ele deficiente mental e nunca ter mexido comigo. Não entendia porque os motoristas deixavam ele entrar, acho que era só de pirraça com o pessoal. E quase dez anos depois ele continua fazendo a mesma coisa.

Mas deixo claro, esse tipo de socialização não acontece quando o ônibus está superlotado, como na maioria das vezes. Nesse caso, prefiro a solidão e conforto do automóvel.

Dia Mundial Sem Carro

Setembro 23, 2008

Malditos automóveis abomináveis que entopem as artérias de nossas cidades, junto com seus motoristas que só pensam em si mesmos!

Este é o pensamento da moda, nessa época de Dia Mundial Sem Carro. Jornalistas fazem especiais sobre o trânsito, o assunto está em todas as mídias. Pessoas que nunca andaram muito de ônibus e metrô aderem a moda de por alguns dias utilizar o transporte público e dizer na sua rodinha de amigos ou blogs suas aventuras excêntricas.

Afinal, quais são as razões de São Paulo estar parando aos poucos? Será que é só por causa dos seus habitantes egoístas que ocupam um espaço inteiro de um carro só para eles?

De algumas décadas para cá, ao mesmo tempo que o transporte público foi virando sinônimo de transporte de gado o centro da cidade perdeu aproximadamente 20% de sua população. A parte mais rica invadiu bairros dentro ou próximos ao centro expandido (como o Tatuapé, Moema, Campo Belo, etc.) conseqüentemente elevando o valor dos imóveis e atraindo o mercado imobiliário, obrigando moradores de menor poder aquisitivo a se mudar para bairros mais distantes ainda (Itaquera, Grajaú, Cantareira, etc.), junto com a parte mais pobre dos antigos moradores do centro.

Por causa disso a viagem diária dos paulistanos aumentou em muitos quilômetros. Ônibus, metrô e trens foram ficando cada vez mais cheios, e a população foi ficando cansada do transporte público. Quando a compra de automóveis ficou mais fácil para a classe média e baixa, os habitantes não pensaram duas vezes em comprar carros. Passar 2 horas no trânsito como uma sardinha enlatada ou 1,5h confortavelmente dentro de um carro? É uma escolha óbvia. Nós somos cheios de ideologias, mas quando o calo aperta fazemos o que é o melhor para a nossa própria sobrevivência. Essa transição de transporte público para privado não diminuiu o número de pessoas usuárias de ônibus e aumentou muito o trânsito, mas parece que agora lentamente o transporte público volta a ser mais utilizado.

Toda essa história é muito óbvia, mas na hora de culpar alguém o governo finge que não lembra. Quem é o responsável pelo centro estar desvalorizado e mais perigoso? Quem é o responsável pelo transporte público estar essa merda? É toda nossa? Claro! Por isso um dia teremos que pagar pedágio para entrar no centro, e o financiamento de carros será dificultado. Porque melhorar as coisas é uma coisa muito difícil para o Estado. Os trens custam muito caros sabe? Muitos políticos precisariam deixar de passar a mão na nossa grana para mais linhas de metrô serem construídas e o número de trens aumentado, e isso é inconcebível! A população paga o preço pela sua ignorância na hora do voto, que é proporcionada pela falta de investimento em educação pelos políticos que recebem os seus votos. Viva a democracia!

Eu uso carro todos os dias, inclusive em dia de rodízio. Não penso em bicicleta para me locomover até o trabalho porque moro 25 km distante dele, e quando tenho que andar de ônibus em horário de pico lembro do meu carro como se fosse uma pessoa querida. Sou eu o culpado então, sou um humano egoísta e desprezível que não se importa com os outros humanos. Sim, sou. E só vou ajudar a cidade quando eu tiver algum meio de ajudar sem me sacrificar, provavelmente quando morar próximo ao metrô.

Vote nulo nessas eleições.