Para viver em uma calçada ou embaixo de um viaduto é preciso deixar todo sentimentalismo barato para trás. Você não acha por aí mendigos mimados ou carentes de mão na cabeça.
Houve um tempo em que eu não tirei da cabeça a idéia do suicídio. Nada mais fazia sentido. Eu não queria mais continuar. Havia fracassado em tudo que tinha tentado fazer. Game over. Não tinha que viver aqui na sujeira, com um bando de loucos fedidos e esfomeados de pão e pinga. Cheguei a ficar mais de quinze dias sem falar uma palavra. Já pensei em todo tipo de suicídio, desde silenciosos a pirotécnicos. Eu não tive coragem.
Depois me adaptei, terminei minha mutação. Sou um morlock do submundo. Não espero que o mundo me abrace, que eu seja feliz para sempre com um emprego que eu sempre quis, e com uma mulher gostosa. Quero apenas sobreviver. Quero apenas observar. Ficar chapado, pensar, viajar. Não preciso antecipar minha morte, ela pode chegar amanhã.
Não digo que não tenho sonhos, ainda tenho um ou outro, sem maiores pretensões. Quero apenas observar o mar, e ter dinheiro suficiente para passar meus últimos dias sem passar fome. Talvez essa seja minha idéia de felicidade.
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