Cabeças e árvores

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Resolvi andar. Endorfina. Ruas, praças. Um cemitério, porque não? O maior da america latina. Com certeza paz é o que não falta naquele lugar.
Entro e desço uma rua asfaltada, com túmulos pobres à minha direita. Silêncio. Chego ao meio do parque e vejo que há um velório. A brincadeira já estava ficando sem graça. Resolvi ir até a mata de árvores altas. Se tem um lugar que me faça me sentir bem é o interior de um bosque ou floresta. Não sei explicar muito bem o porquê. Vi um gavião, tentei chegar perto para uma foto com o celular. Ele não deixou e saiu voando. Quando vi era um bando. Fiquei em dúvida se gaviões comem carne morta, porque existia um grupo de urubus que pareciam ser rivais. Entrei no bosque. Gosto de olhar para cima e ver as copas e o céu. Ando olhando para cima. Galhos enroscam no meu pé e arranham a batata da perna. A base das árvores estavam negras. Olho pro outro lado e vejo velas. Entendi. Galhos e mais galhos enroscam. Rasgam. Saí dali e entrei numa rua que margeia o bosque. Um pedaço de madeira logo a frente, parece que caiu das árvores. Chegando perto vejo que tem a semelhança de alguma coisa. Sombras passam por mim, acho que são de algum avião. São urubus. Três. Chego mais perto. Moscas. Cabeça de um bode. Como podem chamar essa porra de religião? Saí do cemitério às pressas, tropeçando em tudo, com algo preso na garganta. Mais de duzentos mil mortos ali e quem me expulsam são poucos vivos sujos que sequer estavam ali.

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