Dia Mundial Sem Carro

By grego

Malditos automóveis abomináveis que entopem as artérias de nossas cidades, junto com seus motoristas que só pensam em si mesmos!

Este é o pensamento da moda, nessa época de Dia Mundial Sem Carro. Jornalistas fazem especiais sobre o trânsito, o assunto está em todas as mídias. Pessoas que nunca andaram muito de ônibus e metrô aderem a moda de por alguns dias utilizar o transporte público e dizer na sua rodinha de amigos ou blogs suas aventuras excêntricas.

Afinal, quais são as razões de São Paulo estar parando aos poucos? Será que é só por causa dos seus habitantes egoístas que ocupam um espaço inteiro de um carro só para eles?

De algumas décadas para cá, ao mesmo tempo que o transporte público foi virando sinônimo de transporte de gado o centro da cidade perdeu aproximadamente 20% de sua população. A parte mais rica invadiu bairros dentro ou próximos ao centro expandido (como o Tatuapé, Moema, Campo Belo, etc.) conseqüentemente elevando o valor dos imóveis e atraindo o mercado imobiliário, obrigando moradores de menor poder aquisitivo a se mudar para bairros mais distantes ainda (Itaquera, Grajaú, Cantareira, etc.), junto com a parte mais pobre dos antigos moradores do centro.

Por causa disso a viagem diária dos paulistanos aumentou em muitos quilômetros. Ônibus, metrô e trens foram ficando cada vez mais cheios, e a população foi ficando cansada do transporte público. Quando a compra de automóveis ficou mais fácil para a classe média e baixa, os habitantes não pensaram duas vezes em comprar carros. Passar 2 horas no trânsito como uma sardinha enlatada ou 1,5h confortavelmente dentro de um carro? É uma escolha óbvia. Nós somos cheios de ideologias, mas quando o calo aperta fazemos o que é o melhor para a nossa própria sobrevivência. Essa transição de transporte público para privado não diminuiu o número de pessoas usuárias de ônibus e aumentou muito o trânsito, mas parece que agora lentamente o transporte público volta a ser mais utilizado.

Toda essa história é muito óbvia, mas na hora de culpar alguém o governo finge que não lembra. Quem é o responsável pelo centro estar desvalorizado e mais perigoso? Quem é o responsável pelo transporte público estar essa merda? É toda nossa? Claro! Por isso um dia teremos que pagar pedágio para entrar no centro, e o financiamento de carros será dificultado. Porque melhorar as coisas é uma coisa muito difícil para o Estado. Os trens custam muito caros sabe? Muitos políticos precisariam deixar de passar a mão na nossa grana para mais linhas de metrô serem construídas e o número de trens aumentado, e isso é inconcebível! A população paga o preço pela sua ignorância na hora do voto, que é proporcionada pela falta de investimento em educação pelos políticos que recebem os seus votos. Viva a democracia!

Eu uso carro todos os dias, inclusive em dia de rodízio. Não penso em bicicleta para me locomover até o trabalho porque moro 25 km distante dele, e quando tenho que andar de ônibus em horário de pico lembro do meu carro como se fosse uma pessoa querida. Sou eu o culpado então, sou um humano egoísta e desprezível que não se importa com os outros humanos. Sim, sou. E só vou ajudar a cidade quando eu tiver algum meio de ajudar sem me sacrificar, provavelmente quando morar próximo ao metrô.

Vote nulo nessas eleições.

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Uma resposta para “Dia Mundial Sem Carro”

  1. Dia Mundial sem Carro « Delírio Cotidiano Disse:

    [...] parte 1 [...]

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