Ocupar prédios é preciso. Porque gente vale mais que barata.
Ótimo texto do Sakamoto

Para viver em uma calçada ou embaixo de um viaduto é preciso deixar todo sentimentalismo barato para trás. Você não acha por aí mendigos mimados ou carentes de mão na cabeça.
Houve um tempo em que eu não tirei da cabeça a idéia do suicídio. Nada mais fazia sentido. Eu não queria mais continuar. Havia fracassado em tudo que tinha tentado fazer. Game over. Não tinha que viver aqui na sujeira, com um bando de loucos fedidos e esfomeados de pão e pinga. Cheguei a ficar mais de quinze dias sem falar uma palavra. Já pensei em todo tipo de suicídio, desde silenciosos a pirotécnicos. Eu não tive coragem.
Depois me adaptei, terminei minha mutação. Sou um morlock do submundo. Não espero que o mundo me abrace, que eu seja feliz para sempre com um emprego que eu sempre quis, e com uma mulher gostosa. Quero apenas sobreviver. Quero apenas observar. Ficar chapado, pensar, viajar. Não preciso antecipar minha morte, ela pode chegar amanhã.
Não digo que não tenho sonhos, ainda tenho um ou outro, sem maiores pretensões. Quero apenas observar o mar, e ter dinheiro suficiente para passar meus últimos dias sem passar fome. Talvez essa seja minha idéia de felicidade.
Estava em Cingapura.
Haviam furtado meus cartões.
Reflexão sobre a ausência de árvores.
Uma pequena dose de pânico.
Acordei e conferi a carteira, estava tudo ok.

Resolvi andar. Endorfina. Ruas, praças. Um cemitério, porque não? O maior da america latina. Com certeza paz é o que não falta naquele lugar.
Entro e desço uma rua asfaltada, com túmulos pobres à minha direita. Silêncio. Chego ao meio do parque e vejo que há um velório. A brincadeira já estava ficando sem graça. Resolvi ir até a mata de árvores altas. Se tem um lugar que me faça me sentir bem é o interior de um bosque ou floresta. Não sei explicar muito bem o porquê. Vi um gavião, tentei chegar perto para uma foto com o celular. Ele não deixou e saiu voando. Quando vi era um bando. Fiquei em dúvida se gaviões comem carne morta, porque existia um grupo de urubus que pareciam ser rivais. Entrei no bosque. Gosto de olhar para cima e ver as copas e o céu. Ando olhando para cima. Galhos enroscam no meu pé e arranham a batata da perna. A base das árvores estavam negras. Olho pro outro lado e vejo velas. Entendi. Galhos e mais galhos enroscam. Rasgam. Saí dali e entrei numa rua que margeia o bosque. Um pedaço de madeira logo a frente, parece que caiu das árvores. Chegando perto vejo que tem a semelhança de alguma coisa. Sombras passam por mim, acho que são de algum avião. São urubus. Três. Chego mais perto. Moscas. Cabeça de um bode. Como podem chamar essa porra de religião? Saí do cemitério às pressas, tropeçando em tudo, com algo preso na garganta. Mais de duzentos mil mortos ali e quem me expulsam são poucos vivos sujos que sequer estavam ali.
Acordou e sentiu sua cabeça doer. Estava frio, mas sua mão estava pulsando. Não se importou. Ao se apoiar também percebeu que a mão tinha sangue seco e estava muito inchada. Não sabia que dia era. Viu uma mulher com um carrinho de bebê na outra esquina. Chegou razoavelmente perto. Cães. Três dividiam o carrinho. Teve plena convicção que aquela mulher mudaria sua vida. Foi atravessar a avenida. Vinha um carro acelerando, vermelho como seu nariz. Teve certeza que o carro acelerou quando o viu. Tentou correr, o carro chegando junto com a morte. Chegou vivo à calçada. Felicidade instantânea. O que falar para a mulher? Dor instantânea. É o fígado, certeza. Caiu alguns metros antes de seu objetivo. Um cão pulou do carrinho, cheirou o homem e o lambeu. Foi seu último carinho. A mulher chamou o cão e foi embora.
creio que não hajam leitores habituais
mas se eles ainda existam depois desta longa parada
digo que não consigo mais escrever
talvez outras mídias tenham colocado o delírio em coma
ou talvez a preguiça o tenha expulsado
um dia talvez ele volte, mas nada é previsto.